Cinco novidades do Congresso Brasileiro de Nefrologia 2026

Acabei de voltar de Belo Horizonte, onde participei do XXXIII Congresso Brasileiro de Nefrologia. Foram dias de muita atualização científica, troca de experiências e novidades na área da saúde renal. Um resumo das novidades que podem, nos próximos anos, mudar a forma como tratamos algumas doenças renais. Importante: os tratamentos discutidos dependem do diagnóstico e das características de cada paciente e não devem ser iniciados sem orientação médica.

Dr. Roberto Galvão

9/28/20266 min read

1. Gliflozinas e prevenção de cálculos renais

Um dos assuntos que achei particularmente interessante foi a discussão sobre o possível papel das gliflozinas como dapagliflozina e empagliflozina na redução do risco de cálculos renais. Esses medicamentos são conhecidos principalmente pelo tratamento do diabetes tipo 2 e, atualmente, também têm importantes indicações na doença renal crônica e na insuficiência cardíaca. A relação com os cálculos renais é relativamente nova e interessante. Estudos observacionais e metanálises recentes sugerem que pacientes com diabetes tipo 2 que utilizam inibidores de SGLT2 apresentam menor risco de desenvolver nefrolitíase. Em uma grande análise publicada em 2025, o risco de cálculo renal foi menor entre usuários de SGLT2 quando comparados a usuários de outras classes de medicamentos para diabetes. Uma das explicações levantadas envolve justamente a relação entre distúrbios metabólicos, obesidade, resistência à insulina, síndrome metabólica, doença hepática metabólica e formação de cálculos renais.

Mas aqui é muito importante fazer uma ressalva: isso não significa que dapagliflozina ou empagliflozina sejam medicamentos que devam ser prescritos simplesmente para tratar pedras nos rins. A formação de cálculos depende de diversos fatores. É necessário saber qual é o tipo de cálculo, avaliar hábitos alimentares, ingestão de líquidos, histórico familiar e, em determinados pacientes, realizar investigação metabólica, inclusive com análise da urina de 24 horas. Portanto, as gliflozinas são um tema muito interessante para pesquisa e para pacientes que já apresentam indicação de utilizá-las por outras razões. Não significa que uma pessoa com cálculo renal deva simplesmente começar a tomar Forxiga ou Jardiance.

2. Canabidiol em pacientes com doença renal crônica

Outro assunto que me chamou bastante atenção foi a discussão sobre o canabidiol (CBD) e seu possível papel no tratamento de sintomas apresentados por pacientes com doença renal crônica. Quem acompanha pacientes renais sabe que sintomas como dor, distúrbios do sono, ansiedade e, principalmente, o prurido associado à doença renal crônica podem comprometer bastante a qualidade de vida. O prurido urêmico é particularmente importante em pacientes em hemodiálise. Estudos mostram uma associação entre a intensidade da coceira e sintomas como distúrbios do sono, depressão, ansiedade e pior qualidade de vida. Durante o congresso, foram discutidas possibilidades envolvendo produtos à base de canabinoides, inclusive formulações tópicas contendo canabidiol. É uma área que considero interessante, mas que ainda precisa ser analisada com bastante cuidado. Não devemos transformar uma possibilidade terapêutica discutida em congresso em uma recomendação universal. E existe outro ponto fundamental: o canabidiol pode interagir com outros medicamentos. Isso é particularmente relevante em pacientes renais, que frequentemente utilizam diversos medicamentos simultaneamente. Podem existir interações importantes com medicamentos imunossupressores, anticoagulantes, antidepressivos e outros fármacos. Por isso, quem tem doença renal crônica e está pensando em utilizar canabidiol deve conversar previamente com o médico que acompanha o seu caso.

3. Atrasentan: uma nova possibilidade para a nefropatia por IgA

Uma das novidades mais importantes para pacientes com nefropatia por IgA é o desenvolvimento de novas terapias dirigidas especificamente a mecanismos envolvidos na progressão da doença. Entre elas está o Atrasentan, um antagonista seletivo do receptor A da endotelina. A endotelina é uma substância que participa de mecanismos relacionados à contração dos vasos sanguíneos e também pode estar envolvida em processos de lesão renal. No estudo ALIGN, o atrasentan produziu uma redução significativa da proteinúria em comparação com placebo. Na análise inicial de 36 semanas, a diferença entre os grupos foi de aproximadamente 36 pontos percentuais na relação proteína/creatinina urinária. E os dados mais recentes são ainda mais interessantes. Na análise final de 2,5 anos, o tratamento foi associado a menor perda de função renal e preservação da taxa de filtração glomerular, embora os resultados precisem ser interpretados dentro das características específicas da população estudada. Por que isso é importante? Porque a proteinúria é um dos principais marcadores utilizados para avaliar atividade e risco de progressão da doença renal na nefropatia por IgA. A redução da proteinúria, portanto, é um dos objetivos importantes do tratamento. A nefropatia por IgA é uma das principais causas de glomerulopatia no mundo, e a chegada de novas estratégias terapêuticas representa uma mudança importante no tratamento desses pacientes.

4. Obinutuzumabe: novas possibilidades para doenças glomerulares

Outro medicamento que apareceu com bastante destaque nas discussões foi o obinutuzumabe, um anticorpo monoclonal que atua sobre os linfócitos B. O medicamento já é utilizado em algumas doenças hematológicas e autoimunes, mas vem sendo estudado também em doenças renais. Na nefrite lúpica, o estudo ALLEGORY demonstrou resultados favoráveis para o obinutuzumabe em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico ativo, embora seja importante distinguir os diferentes desenhos e populações dos estudos envolvendo lúpus sistêmico e nefrite lúpica especificamente. Mas talvez uma das novidades mais interessantes seja a glomerulonefrite membranosa. O estudo MAJESTY, publicado em 2026, comparou obinutuzumabe com tacrolimo em pacientes com nefropatia membranosa primária. Após 104 semanas, a remissão completa ocorreu em 37% dos pacientes tratados com obinutuzumabe, contra 6% daqueles tratados com tacrolimo, com diferença estatisticamente significativa. É um resultado bastante relevante. Naturalmente, isso não significa que todos os pacientes com nefropatia membranosa devam receber obinutuzumabe. Tratamentos imunossupressores precisam levar em consideração o risco individual de progressão da doença, a presença de anticorpos, função renal, proteinúria, risco infeccioso e diversos outros fatores. Mas os resultados mostram como o tratamento das doenças glomerulares está evoluindo rapidamente.

5. Um caso que chamou minha atenção: um grande cisto renal que não era câncer

Para finalizar, quero destacar uma atividade que nem sempre recebe tanta atenção quanto as grandes palestras e apresentações de medicamentos: a apresentação de pôsteres e relatos de casos. Eu gosto particularmente dessa parte dos congressos porque ela permite conhecer situações reais e pouco comuns que podem trazer ensinamentos importantes para a prática médica. Um dos casos que chamou minha atenção envolvia uma paciente com um grande cisto renal classificado como Bosniak IV. A classificação de Bosniak é utilizada para avaliar cistos renais complexos e estimar o risco de malignidade. Uma lesão Bosniak IV apresenta características altamente suspeitas e frequentemente necessita de tratamento cirúrgico. Neste caso, tratava-se de uma lesão enorme, com aproximadamente 10 centímetros, que tinha características radiológicas preocupantes. A paciente foi submetida a cirurgia robótica e, felizmente, o diagnóstico definitivo revelou tratar-se de um nefroma cístico, uma lesão benigna. Mais interessante ainda foi o fato de ter sido possível realizar o procedimento preservando o restante do tecido renal. Isso permitiu que a paciente mantivesse uma excelente função renal após a cirurgia, com creatinina em torno de 0,8 mg/dL, além de uma recuperação pós-operatória rápida. Esse tipo de caso mostra uma das grandes preocupações da nefrologia: não basta tratar a doença; precisamos também preservar a maior quantidade possível de tecido renal saudável.

Um congresso muito maior do que esses cinco assuntos

Esses foram apenas cinco dos muitos assuntos que chamaram minha atenção durante o XXXIII Congresso Brasileiro de Nefrologia. O congresso foi muito mais amplo, envolvendo doença renal crônica, diálise, transplante, hipertensão, doenças glomerulares, nefrologia pediátrica, injúria renal aguda, novas tecnologias e inúmeros outros temas. A própria dimensão da produção científica apresentada mostra como a nefrologia está passando por um período de rápida transformação. Foram quase 1.500 trabalhos científicos submetidos ao congresso, mostrando a força da pesquisa realizada por nefrologistas e pesquisadores brasileiros. Para mim, participar de um congresso como esse é uma oportunidade de voltar ao consultório trazendo não apenas novos medicamentos, mas principalmente novas perguntas, novas possibilidades e uma visão mais atualizada sobre aquilo que já fazemos todos os dias. E esse é justamente um dos objetivos aqui do Canal Nefrologista: transformar o que existe de mais interessante na medicina renal em informação compreensível para quem não é médico, sem perder o compromisso com a ciência e com a segurança dos pacientes.

Endereço:

Rua Augusta, 101 - Cj 1414 - São Paulo - SP - Brasil

© 2025. All rights reserved.

Logo do canal de YouTube do Dr Roberto Galvão nefrologistaLogo do canal de YouTube do Dr Roberto Galvão nefrologista
Logo do canal de  Instagram do Dr RobertoLogo do canal de  Instagram do Dr Roberto

📞(11) 4114-9114

Contato:
Siga:
Logo do whatsapp de contato do consultórioLogo do whatsapp de contato do consultório
Logo do canal de TikTok do Dr RobertoLogo do canal de TikTok do Dr Roberto